França declara guerra ao Estado Islâmico e investigação se estende à Bélgica

O EI reivindicou a carnificina sem precedentes ocorrida em Paris, que deixou 129 mortos e 352 feridos

A França está em guerra e atacará o Estado Islâmico até destruí-lo, afirmou neste sábado o governo francês depois que o grupo jihadista radical assumiu os atentados que na noite de sexta-feira deixaram 129 mortos e 352 feridos, sendo que 99 em estado grave.

“Quero dizer aos franceses que estamos em guerra. Sim, estamos em guerra e vamos atuar e atingir esse inimigo jihadista para destruí-lo na França, na Europa, na Síria e no Iraque”, afirmou primeiro-ministro francês Manuel Valls.

O EI reivindicou a carnificina sem precedentes ocorrida em Paris e qualificada de “ato de guerra” pelo presidente François Hollande, que provocou um grande choque em um país já atingido por atentados jihadistas há 10 meses.”Oito irmãos usando cintos explosivos e armados com fuzis atacaram locais cuidadosamente escolhidos, no coração de Paris”, afirma o comunicado, publicado em duas versões, em árabe e em francês.

“O que aconteceu ontem foi um ato de guerra cometido pelo Daesh (acrônimo em árabe de EI). Ele foi preparado, organizado, planejado no exterior, com cúmplices internos que a investigação deverá estabelecer”, declarou Hollande durante uma breve alocução no palácio do Eliseu. “Que a França e aqueles que seguem seu rumo saibam que serão os alvos principais do Estado Islâmico”, advertiu ainda a organização jihadista. Membro coalizão internacional contra o EI, a França bombardeia alvos no Iraque há mais de um ano e na Síria desde setembro.

Ramificação belga

As investigações da bem coordenada série de atentados tiveram alguns elementos revelados neste sábado pelo procurador-geral François Molins. “Sete terroristas morreram no curso de suas ações criminosas”, afirmou, em uma coletiva de imprensa. Os locais dos ataques foram a casa de shows Le Bataclan, outros quatro pontos do leste da capital e as imediações do Stade de France, onde Hollande assistia uma partida amistosa entre as seleções da França e da Alemanha.

Molins fez um relato cronológico dos seis atentados que começaram às 21H20 local (18H20 de Brasília) com a explosão de um primeiro camicase perto do Stade de France e concluíram depois da meia-noite, com o a resposta das forças de segurança francesas à tomada de reféns realizada por três indivíduos no Bataclan. A agressão resultou em 89 mortos, inclusive a dos dois camicases que detonaram seus cinturões de explosivos. O terceiro foi abatido pela polícia. Os extremistas atuaram em três grupos e usaram ao menos dois veículos de cor negra, um Seat e um VW Polo, este último com matrícula belga.

O Polo foi alugado na Bélgica por um francês interpelado neste sábado pelas autoridades belgas junto a outras duas pessoas, todas residentes neste país e desconhecidas dos serviços antiterroristas francese. Segundo o procurador, os atacantes evocaram a situação na Síria e no Iraque ao se dirigir aos reféns no Bataclan. Usaram fuzis de guerra Kalashnikov com balas de 7,62 mm e explosivos TATP de peróxido de nitrogêneo em seus coletes.

Um dos atacantes do Bataclan foi formalmente identificado graças às impressões digitais de um dedo cortado pela explosão autoinfligida pelo terrorista. Trata-se de um homem de nacionalidade francesa, nascido em 1985 no departamento de Essonne, perto de Paris, condenado em oito oportunidades por delitos menores, apesar de nunca ter cumprido penas de prisão. Em 2010, foi fichado como “radicalizado” pelos serviços de inteligência.

O procurador confirmou que um dos terroristas possuía passaporte sírioi com ano de nascimento 1990, pertencente a um indivíduo desconhecido pelos serviços de inteligência. As autoridades gregas também indicaram que o passaporte correspondia ao de um migrante sírio chegado no mês passado a uma ilha grega, onde se cadastrou como candidato a estatuto de refugiado.  “Confirmamos que o dono do passaporte chegou à Ilha de Leros em 3 de outubro e foi cadastrado sob regras europeias”, indicou em um comunicado o ministro para a Proteção Cidadã grego, Nikos Toskas.

A polícia grega igualmente informou que as autoridades francesas verifiquem também a procedência de um segundo suspeito. A procuradoria federal belga, por sua vez, abriu uma investigação antiterrorista vinculada aos atentados de Paris. A instrução foi iniciada depois do pedido da procuradoria de Paris em função do veículo matriculado e alugado na Bélgica.

A polícia belga também procedeu a várias detenções em Bruxelas, segundo o ministério da Justiça belga. Um Conselho de Defesa realizado no Palácio do Eliseu decidiu pela mobilização de 1.500 militares adicionais e o reforço dos controles nas fronteiras.

União

Paris amanheceu em estado de choque e completamente descaracterizada pela falta de agitação tão comum da cidade.

Lojas de departamentos, grifes tradicionais, museus, torre Eiffel, avenida Champs Elysées, estes emblemáticos símbolos parisienses, disputados por turistas do mundo inteiro, estavam praticamente desertos, com os parisienses e turistas atendendo aos pedidos das autoridades para ficar em casa.

Na região de Paris, as escolas e universidades ficaram fechadas e os eventos esportivos suspensos neste fim de semana. Em um movimento de união nacional, os principais partidos franceses já anunciaram a suspensão de sua campanha para as eleições regionais marcadas para dezembro.

Várias foram as demonstração de solidariedade para com o povo francês, a começar pelo presidente Barack Obama, o primeiro a se pronunciar e assegurar sua aliança com Paris. A equipe de redação da revista satírica Charlie Hebdo expressou sua revolta dez meses de sofrer um episódio também traumático.

“Toda a equipe do Charlie Hebdo compatilha de seu terror e revolta”, declarou a equipe em um comunicado. “Charlie Hebdo se solidariza com ador das vítimas e expressa seu apoio a suas famílias”. Doze jornalistas, entre os quais cinco chargistas, foram mortos em 7 de janeiro na redação da revista por dois jihadistas franceses que reivindicaram ser da facção da Al-Qaeda da Península Arábica.

 

Brasileiros

Centenas de pessoas prestaram homenagens às vítimas comparecendo aos locais dos ataques para deixar floretes e velas acesas. Pelo menos 15 estrangeiros morreram nos atentados, entre eles uma estudante americana, dois chilenos, um espanhol, um português, dois belgas, dois romenos, um britânico, duas tunisianas, dois argelinos e um marroquino.

Vários americanos se encontram entre os feridos, cujo número não foi divulgado. O Ministério brasileiro das Relações Exteriores confirmou dois brasileiros entre os feridos nos ataques.

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